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Acidente Vascular Cerebral – Resumo Completo

Conteúdo atualizado sobre AVC isquêmico e hemorrágico, com reconhecimento precoce, janela terapêutica e condutas baseadas em evidências.

Conceito

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma síndrome neurológica focal ou global de instalação súbita, causada por interrupção do fluxo sanguíneo cerebral (isquemia) ou ruptura de vasos sanguíneos (hemorragia).

É a segunda principal causa de morte no mundo e a primeira causa de incapacidade funcional em adultos. No Brasil, representa uma das principais causas de internação hospitalar e óbito.

Classificação (Isquêmico e Hemorrágico)

AVC Isquêmico (80-85% dos casos)

Causado por obstrução arterial que leva à isquemia e necrose do tecido cerebral.

Subtipos (classificação TOAST):

  • Aterotrombótico: aterosclerose de grandes artérias
  • Cardioembólico: fibrilação atrial, valvopatias, IAM recente
  • Lacunar: oclusão de pequenas artérias perfurantes
  • Outras causas: dissecção arterial, vasculites, trombofilias
  • Indeterminado: causa não identificada

AVC Hemorrágico (15-20% dos casos)

Causado por ruptura de vaso sanguíneo cerebral.

Tipos:

  • Hemorragia intraparenquimatosa (HIP): sangramento dentro do parênquima cerebral
  • Hemorragia subaracnóidea (HSA): sangramento no espaço subaracnóideo

Fisiopatologia

AVC Isquêmico: A obstrução arterial leva à redução crítica do fluxo sanguíneo cerebral. Forma-se uma área de necrose irreversível (core) cercada por uma zona de penumbra isquêmica (tecido viável, mas em sofrimento). A janela terapêutica visa salvar a penumbra.

AVC Hemorrágico: A ruptura vascular causa lesão por efeito de massa (hematoma), edema cerebral, hipertensão intracraniana e isquemia secundária. Pode haver ressangramento nas primeiras horas.

Quadro Clínico

Manifestações comuns:

  • Déficit motor focal (hemiparesia/hemiplegia)
  • Déficit sensitivo unilateral
  • Alteração da fala (afasia, disartria)
  • Alteração visual (hemianopsia, diplopia)
  • Ataxia e vertigem
  • Rebaixamento do nível de consciência

Diferenças clínicas:

  • AVC Isquêmico: instalação súbita, geralmente sem cefaleia intensa
  • AVC Hemorrágico: cefaleia intensa súbita ("pior cefaleia da vida"), náuseas, vômitos, rebaixamento de consciência mais frequente

Reconhecimento Precoce (FAST / NIHSS)

Escala FAST (Reconhecimento Pré-hospitalar)

  • Face (Face): desvio da rima labial
  • Arm (Braço): fraqueza em membro superior
  • Speech (Fala): alteração da fala
  • Time (Tempo): anotar horário de início dos sintomas

Importante: Qualquer sinal positivo indica AVC provável → acionar SAMU imediatamente.

Escala NIHSS (National Institutes of Health Stroke Scale)

Escala de 0 a 42 pontos que avalia gravidade do AVC através de 11 itens (nível de consciência, movimentos oculares, campos visuais, paralisia facial, força motora, ataxia, sensibilidade, linguagem, disartria, extinção/desatenção).

Interpretação: 0 = sem déficit; 1-4 = AVC leve; 5-15 = AVC moderado; 16-20 = AVC moderado-grave; >20 = AVC grave.

Diagnóstico por Imagem

Tomografia Computadorizada (TC) de crânio sem contraste:

  • Exame de escolha inicial (rápido e disponível)
  • Objetivo principal: excluir hemorragia
  • AVC isquêmico agudo pode ser normal nas primeiras 6-12h
  • Sinais precoces: apagamento de sulcos, perda da diferenciação córtico-subcortical, hiperdensidade de artéria

Ressonância Magnética (RM) de crânio:

  • Mais sensível que TC para AVC isquêmico agudo
  • Sequência DWI (difusão) detecta isquemia em minutos
  • Indicada quando TC é inconclusiva ou para AVCs de fossa posterior

Angiotomografia/Angioressonância: avaliar oclusão de grandes vasos (candidatos à trombectomia).

Janela Terapêutica

Trombólise endovenosa (rtPA - alteplase):

  • Janela: até 4,5 horas do início dos sintomas
  • Ideal: quanto mais precoce, melhor (golden hour: primeira hora)
  • Dose: 0,9 mg/kg (máximo 90 mg) - 10% em bolus, 90% em infusão de 1 hora

Trombectomia mecânica:

  • Janela: até 6 horas (pode estender até 24h em casos selecionados com penumbra viável)
  • Indicação: oclusão de grande vaso (carótida interna, M1, M2, basilar)
  • Pode ser associada à trombólise

Tratamento do AVC Isquêmico

Fase Aguda

  • Trombólise IV: se dentro da janela e sem contraindicações
  • Trombectomia mecânica: se oclusão de grande vaso
  • AAS 300 mg: iniciar após 24h da trombólise (ou imediatamente se não trombolisado)
  • Controle pressórico: evitar redução agressiva (manter PA < 220/120 mmHg se não trombolisado; < 180/105 se trombolisado)
  • Controle glicêmico: evitar hiper e hipoglicemia
  • Cabeceira elevada: 30 graus

Prevenção Secundária

  • Antiagregação: AAS 100 mg/dia ou clopidogrel 75 mg/dia
  • Anticoagulação: se fibrilação atrial (varfarina ou DOAC)
  • Estatina: atorvastatina 80 mg/dia (independente do LDL)
  • Controle de fatores de risco: HAS, DM, dislipidemia, tabagismo

Tratamento do AVC Hemorrágico

  • Controle pressórico rigoroso: PA sistólica < 140 mmHg (redução gradual)
  • Reversão de anticoagulação: se em uso de varfarina, DOAC ou heparina
  • Controle da PIC: cabeceira 30°, manitol ou solução salina hipertônica se necessário
  • Neurocirurgia: drenagem se hematoma > 30 mL, deterioração neurológica ou hidrocefalia
  • Controle de convulsões: se presentes

HSA por ruptura de aneurisma: clipagem cirúrgica ou embolização endovascular + nimodipino para prevenir vasoespasmo.

Complicações e Prevenção Secundária

Complicações agudas:

  • Edema cerebral (pico em 3-5 dias)
  • Transformação hemorrágica
  • Convulsões
  • Pneumonia aspirativa
  • TVP e TEP

Medidas preventivas:

  • Profilaxia de TVP (heparina SC após 24-48h)
  • Avaliação de disfagia antes de liberar dieta
  • Mobilização precoce e fisioterapia
  • Controle rigoroso de fatores de risco cardiovascular

Condutas Iniciais na Emergência

Protocolo de atendimento (tempo é cérebro!):

  1. Estabilização inicial: ABC, acesso venoso, oximetria, glicemia capilar
  2. Determinar horário de início: última vez visto normal
  3. TC de crânio urgente: excluir hemorragia
  4. Avaliar critérios para trombólise: checklist de inclusão/exclusão
  5. Exames laboratoriais: hemograma, coagulograma, função renal, glicemia
  6. ECG: investigar fibrilação atrial
  7. Iniciar tratamento específico: trombólise/trombectomia se indicado
  8. Internação em unidade de AVC: monitorização contínua

Dicas de Prova

  • TC de crânio é o primeiro exame (excluir hemorragia antes de trombólise)
  • Janela para trombólise: 4,5 horas
  • Janela para trombectomia: 6 horas (até 24h em casos selecionados)
  • Tempo é cérebro: cada minuto de atraso destrói 1,9 milhão de neurônios
  • Não reduzir PA agressivamente no AVC isquêmico agudo (risco de piorar isquemia)
  • AAS 300 mg deve ser iniciado após 24h da trombólise
  • Fibrilação atrial é a principal causa de AVC cardioembólico
  • Estatina em alta dose (atorvastatina 80 mg) para todos os pacientes
  • Escala FAST para reconhecimento pré-hospitalar
  • Escala NIHSS para avaliar gravidade
  • Cefaleia súbita intensa ("pior da vida") + rigidez de nuca = pensar em HSA

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