Já disponível na App Store

Infecção do Trato Urinário – Resumo Completo

Conteúdo completo sobre ITU, com diagnóstico diferencial, interpretação de exames e tratamento empírico em diferentes cenários clínicos.

Conceito

A Infecção do Trato Urinário (ITU) é caracterizada pela presença e multiplicação de microrganismos no trato urinário, geralmente acompanhada de sintomas clínicos. É uma das infecções bacterianas mais comuns na prática clínica.

Acomete principalmente mulheres devido à anatomia (uretra mais curta e proximidade com região perianal), sendo que cerca de 50-60% das mulheres terão pelo menos um episódio de ITU durante a vida.

Classificação (ITU Baixa, Alta, Complicada e Não Complicada)

Quanto à Localização

  • ITU baixa (cistite): infecção limitada à bexiga
  • ITU alta (pielonefrite): infecção que acomete o parênquima renal

Quanto à Complexidade

ITU não complicada:

  • Mulher jovem, saudável, não gestante
  • Sem anormalidades anatômicas ou funcionais do trato urinário
  • Sem comorbidades significativas

ITU complicada:

  • Homens
  • Gestantes
  • Crianças
  • Idosos
  • Diabetes mellitus
  • Imunossupressão
  • Anormalidades anatômicas (cálculos, obstrução, refluxo vesicoureteral)
  • Cateter vesical de demora
  • Instrumentação recente do trato urinário

Etiologia

Principais agentes etiológicos:

  • Escherichia coli: 80-85% dos casos de ITU não complicada
  • Staphylococcus saprophyticus: 5-15% (comum em mulheres jovens sexualmente ativas)
  • Klebsiella pneumoniae: 3-5%
  • Proteus mirabilis: mais comum em homens e pacientes com cálculos
  • Enterococcus spp.: ITU complicada e hospitalar
  • Pseudomonas aeruginosa: ITU complicada, cateter, instrumentação

Fisiopatologia

A via de infecção mais comum é a ascendente: bactérias da flora intestinal colonizam a região periuretral e ascendem pela uretra até a bexiga. Em casos de pielonefrite, as bactérias ascendem pelos ureteres até os rins.

Mecanismos de defesa do hospedeiro:

  • Fluxo urinário e micção (lavagem mecânica)
  • pH ácido da urina
  • Propriedades antibacterianas da mucosa vesical
  • Imunoglobulinas secretórias
  • Flora vaginal normal (lactobacilos)

Quadro Clínico

Cistite (ITU Baixa)

  • Disúria: dor ou ardência ao urinar
  • Polaciúria: aumento da frequência urinária
  • Urgência miccional: necessidade imperiosa de urinar
  • Dor suprapúbica
  • Hematúria macroscópica (ocasional)
  • Ausência de febre e sintomas sistêmicos

Pielonefrite (ITU Alta)

  • Febre alta (> 38°C) com calafrios
  • Dor lombar (uni ou bilateral)
  • Sinal de Giordano positivo (punho-percussão dolorosa)
  • Náuseas e vômitos
  • Pode haver sintomas de cistite associados
  • Sintomas sistêmicos (prostração, taquicardia)

Diagnóstico

Cistite não complicada: diagnóstico clínico (não necessita exames complementares obrigatoriamente).

Pielonefrite e ITU complicada: sempre solicitar exames complementares.

Interpretação do EAS e Urocultura

Exame de Urina Tipo I (EAS)

Achados sugestivos de ITU:

  • Leucocitúria: > 10 leucócitos/campo (piúria)
  • Bacteriúria: presença de bactérias
  • Nitrito positivo: indica presença de enterobactérias (E. coli)
  • Esterase leucocitária positiva: indica presença de leucócitos
  • Hematúria: pode estar presente

Importante: EAS normal não exclui ITU. Nitrito negativo não exclui ITU (S. saprophyticus e Enterococcus não produzem nitrito).

Urocultura

Padrão-ouro para diagnóstico de ITU. Identifica o agente etiológico e fornece antibiograma.

Interpretação:

  • ≥ 10⁵ UFC/mL: ITU confirmada (mulheres sintomáticas)
  • ≥ 10⁴ UFC/mL: pode ser significativo em homens ou mulheres com sintomas típicos
  • ≥ 10² UFC/mL: significativo em amostra por cateterismo ou punção suprapúbica

Diagnóstico Diferencial

  • Vaginite/cervicite: corrimento vaginal, prurido, ausência de urgência/frequência
  • Uretrite (DST): corrimento uretral, parceiro com sintomas
  • Cistite intersticial: dor crônica, EAS normal
  • Cálculo ureteral: dor em cólica, hematúria
  • Prostatite: dor perineal, sintomas obstrutivos

Tratamento Empírico

Cistite Não Complicada

Primeira escolha:

  • Nitrofurantoína: 100 mg VO 12/12h por 5 dias
  • Fosfomicina: 3g VO dose única

Alternativas:

  • Sulfametoxazol-trimetoprima (SMX-TMP) 800/160 mg VO 12/12h por 3 dias (se resistência local < 20%)
  • Fluoroquinolona (ciprofloxacino 250 mg VO 12/12h por 3 dias) - reservar para casos específicos

Pielonefrite Não Complicada (Ambulatorial)

  • Ciprofloxacino: 500 mg VO 12/12h por 7 dias
  • Levofloxacino: 750 mg VO 1x/dia por 5 dias
  • Alternativa: ceftriaxona 1g IM/IV dose única + ciprofloxacino VO

Pielonefrite Complicada ou Grave (Hospitalar)

  • Ceftriaxona: 1-2g IV 1x/dia
  • Ciprofloxacino: 400 mg IV 12/12h
  • Se sepse grave ou choque: piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico
  • Duração: 10-14 dias

Situações Especiais (Gestante, Homem, Idosos)

Gestantes

Bacteriúria assintomática: deve ser tratada (risco de pielonefrite e parto prematuro).

Tratamento:

  • Nitrofurantoína 100 mg VO 12/12h por 5-7 dias (evitar no 3º trimestre)
  • Cefalexina 500 mg VO 6/6h por 7 dias
  • Amoxicilina-clavulanato 500/125 mg VO 8/8h por 7 dias
  • Contraindicados: fluoroquinolonas, tetraciclinas, SMX-TMP no 1º e 3º trimestres

Homens

Toda ITU em homem é considerada complicada. Investigar anormalidades anatômicas e prostatite.

  • Tratamento por 7-14 dias
  • Fluoroquinolona (boa penetração prostática)
  • Sempre solicitar urocultura

Idosos

Bacteriúria assintomática: não tratar (exceto se for realizar procedimento urológico).

Quadro clínico pode ser atípico (confusão mental, queda, descompensação de comorbidades).

Complicações

  • Abscesso renal ou perirrenal
  • Pionefrose: pus no sistema coletor obstruído
  • Sepse urinária
  • Insuficiência renal aguda
  • Pielonefrite enfisematosa: em diabéticos
  • ITU recorrente: ≥ 2 episódios em 6 meses ou ≥ 3 em 1 ano

Medidas Gerais e Prevenção

  • Hidratação adequada (aumentar diurese)
  • Urinar após relação sexual
  • Evitar retenção urinária prolongada
  • Higiene adequada (limpar de frente para trás)
  • Evitar duchas vaginais e espermicidas
  • Cranberry: pode reduzir recorrência (evidência limitada)
  • Profilaxia antibiótica: considerar em ITU recorrente (nitrofurantoína 50-100 mg/dia ou SMX-TMP 3x/semana)

Dicas de Prova

  • E. coli é o agente mais comum (80-85%)
  • Cistite não complicada: diagnóstico clínico, não precisa de exames
  • Nitrofurantoína é primeira escolha para cistite não complicada
  • Fosfomicina dose única é excelente opção (alta adesão)
  • Pielonefrite: sempre solicitar urocultura
  • Sinal de Giordano positivo sugere pielonefrite
  • Gestante com bacteriúria assintomática deve ser tratada
  • Idoso com bacteriúria assintomática não deve ser tratado
  • Toda ITU em homem é considerada complicada
  • Nitrito positivo indica enterobactérias (E. coli)
  • S. saprophyticus e Enterococcus não produzem nitrito
  • ITU recorrente: ≥ 2 episódios em 6 meses ou ≥ 3 em 1 ano

Quer dominar este tema?

No MedMaster, você tem acesso a resumos completos, questões comentadas e ferramentas de IA para acelerar seus estudos.

Estudar este tema no MedMaster
Baixar grátis na App Store